A etapa de montagem do alambique e do processo de destilação do sope

O alambique da Senhora Masosote, ilustrado na Figura 3, é construído artesanalmente com materiais disponíveis na região. É composto pelo xitamborane (que significa “tambor pequeno”), um recipiente cilíndrico de cerca de 80 cm de altura e 40 cm de diâmetro, feito de metal, onde é colocado a mistura fermentada da massala. Assim, sua função equivale à da caldeira, ou seja, “armazenar o líquido (mosto) a ser destilado” (Dias; Machado, 2020, p. 134).

A mistura fermentada da massala é aquecida diretamente no xitamborane, com galhos grossos e gravetos dispostos ao redor da sua base. O fogo precisa ser contínuo, porém moderado, garantindo que o calor seja aplicado de forma gradual e constante, condição essencial para uma destilação eficaz.

(a) Alambique

b) Xitamborane contendo massala fermentada.

c) Zambiza e phandzi

d) Masosote vedando a panela de barro e a conexão com o tubo metálico.

Na parte superior do xitamborane há uma abertura de aproximadamente 20 cm de diâmetro, por onde é colocada a mistura fermentada, até a metade de seu volume. Dona Masosote explicou: “Não se enche, porque cresce quando começa a ferver. Tira espuma, por isso temos de fechar com folhas de cajueiro”, apontando para as folhas, “senão sairá suco fermentado, e queremos o sope branco”, o destilado e não a mistura.

Ao ferver, formam-se bolhas no interior do líquido, o que provoca sua expansão, como descreve Chang et al. (2013, p. 500): “quando se forma uma bolha, o líquido que inicialmente ocupava esse espaço é afastado para os lados, obrigando o nível do líquido, dentro do recipiente, a subir”, a “crescer”, revelando a percepção de Dona Masosote sobre seu comportamento durante a fervura. Esse processo é ainda mais agravado com a presença de compostos carboxílicos (gorduras) na polpa das massalas.

No xitamborane, há uma abertura lateral de cerca de 4 cm, onde é acoplada a extremidade de um tubo metálico estreito, de cerca de um metro e meio de comprimento. O acoplamento é vedado com uma mistura de terra e areia úmida, a mesma utilizada para vedar o encaixe da panela de barro colocada na abertura superior do tambor, que é essencial para evitar o escapamento de vapores, o que comprometeria a obtenção da bebida com teor alcoólico adequado. Esse tubo conduz os vapores gerados pela fervura da massala fermentada até um recipiente coletor, geralmente uma garrafa de vidro.

Na outra extremidade desse tubo, ela encaixa um pequeno graveto chamado zambiza, que atua como um direcionador vertical do destilado diretamente para o interior da garrafa. A zambiza é sustentada pelo phandzi, um graveto em forma de “Y”, que é disposto horizontalmente e encaixa a zambiza na posição correta, garantindo que o líquido seja direcionado para a garrafa coletora e não se disperse.

Para realizar o resfriamento dos vapores, o tubo metálico é envolvido com um pano e introduzido no tsevele, uma estrutura feita a partir da casca de tambeira (localmente conhecida como Ntsondzo), uma árvore frondosa, considerada sagrada na região de Gaza, por ser o local de repouso e tomada de decisões do Rei Ngungunyane[1] (Cossa, 2021).

O tsevele tem cerca de 60 cm de largura e um comprimento ligeiramente menor que o do tubo. É disposto de forma inclinada, com ângulo inferior a 45º em relação ao xitamborane e, é sustentado por pedras ou um outro objeto. Suas bordas laterais são presas por gravetos que funcionam como grampos, formando uma estrutura quase cilíndrica, onde se coloca água fria, cuja função é condensar os vapores alcoólicos que percorrem o tubo durante a destilação.

Quando questionada sobre o uso do pano e da água fria, a Senhora Masosote respondeu: “É para esfriar, senão sai quente, não agrada! Tem que sair fria”, o vapor precisa ser resfriado seguindo o princípio físico da condensação, ou seja, tem que passar do estado gasoso para o líquido: “o resfriamento do gás leva a uma diminuição da energia cinética das suas moléculas, que se agregam para formar pequenas gotas de líquido” (Chang, 2013, p. 501). À medida que a temperatura do vapor diminui, as moléculas perdem energia e passam a interagir mais fortemente, resultando no sope destilado.

[1] Ngungunyane foi o último imperador do Império de Gaza, no território que atualmente é Moçambique, e último monarca da dinastia Jamine de origem Zulu.

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CHANG, Raymond.; GOLDSBY, Kenneth. A. Química. 11. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

COSSA, Dulcídio M. A. Ancestralidade, possessão e feitiçaria na África bantu: um estudo etnográfico entre os tsonga. 2021. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2021.

DIAS, Silvia. M. B. C; MACHADO, Ana. M. de R. Produção artesanal de aguardente de cana. In: CARDOSO, Maria das Graças (org.). Produção de aguardente de cana. 4. ed., rev. e ampl. Lavras: UFLA, 2020. p. 119–159.