A árvore que produz o fruto usado no preparo do sope é a massaleira (Strychnos spinosa), ilustrada na figura 2, uma planta de pequeno a médio porte (1 a 7 metros), comum na África Subsaariana. Em Angola, o fruto é chamado maboque e a árvore, maboqueiro; também é conhecida como monkey orange (“laranja dos macacos”) ou orange de brousse (“laranja selvagem”) (Tittikpina et al., 2020)
Os frutos são esféricos (6 -15 cm), com casca dura e cor que varia do verde ao amarelo quando maduros. Cada árvore pode produzir entre 300 e 700 frutos, totalizando até 100 kg. A polpa apresenta sabor doce e aroma complexo, contendo açúcares, ácidos orgânicos, vitamina C, proteínas, fibras, compostos antioxidantes e minerais como ferro e zinco, sendo uma importante fonte nutricional para populações rurais (Omotayo; Aremo, 2021). Além do valor alimentar, a massaleira possui usos etnomedicinais tradicionais para tratar diversas doenças, incluindo malária, feridas e infecções, graças à presença de compostos bioativos como alcaloides, taninos e antioxidantes (Avakoudjo et al., 2019).
Sobre a colheita dos frutos, Dona Masosote explicou que as massalas podem ser colhidas diretamente da árvore quando ainda estão verdes, ou apanhadas no chão quando já estão maduras: “Arrancas enquanto estão verdes. Por regra, arrancas enquanto estão verdes, encontras enquanto estão maduras; quando estão maduras caem sozinhas. As maduras, irei vos mostrar, estão lá. Encontra enquanto caíram sozinhas, então só chegas, quebras, raspas e coloca num recipiente”. Repetiu a ação para enfatizar: “Raspas e colocas num recipiente, raspas e colocas num recipiente”. Raspar significa retirar a polpa do fruto com uma colher.
Explicou que o tratamento é diferente conforme o estado do fruto. As massalas maduras, já no estado de maturação, com elevado teor de sólidos solúveis totais (TSS), acúmulo de sacarose, glicose, frutose e os ácidos cítrico e málico (Ngadze et al., 2017), passam diretamente para a raspagem e fermentação, que dura seis dias. Já as massalas verdes precisam ser quebradas com um pedaço de pau ou metal e tapadas com seus respetivos policarpos: as cascas são encaixadas nos frutos novamente, sendo deixadas assim por quatro dias.
Dona Masosote diz que é preciso “derreter” as massalas verdes (kunhivilika, em xichangana): “Quando optas por arrancares enquanto estão verdes, tens de começar por quebrar e elas derreterem”, ou seja, processos bioquímicos alteram as características físicas e químicas do fruto, influenciando tanto a textura quanto o sabor. Desse modo, as massalas perdem a firmeza da polpa, ficam mais moles ou fluidas, enzimas como pectinases e celulases atuam na quebra das paredes celulares provocando a perda de firmeza e conferindo à polpa uma textura mais homogênea e amolecida (Ngadze et al., 2017), fenômeno que Dona Masosote descreve, de forma sensível e precisa, como “derreter”.
Ao escutarmos e observar a Dona Masosote contar e recontar os dias, vimos que a contagem não era apenas uma marca do tempo, mas um modo de acompanhar as transformações que ela conhecia com precisão. Cada gesto – quebrar, tampar, raspar, misturar – trazia consigo uma lógica construída na prática. Esse conhecimento é construído pelo fazer, pelo sentir o processo, e não apenas por explicações teóricas. De acordo com ela, independentemente do tipo de tratamento dado ao fruto, o resultado é o mesmo: “Quando a bebida sai, é igual. Todas amargam da mesma maneira”, contêm álcool. “Sim, amargam da mesma maneira. Juntas maduras e verdes, mas irão amadurecer da mesma maneira”, fermentar, “e tiram bebida igual”, com mesmo teor de etanol. Repetiu a frase para reforçar sua certeza: “Tiram bebida igual”.
A maturação também implica em mudanças na concentração de nutrientes, como cálcio, magnésio, potássio, sódio, zinco e fósforo, que se tornam mais concentrados devido à perda de água. O “derretimento” não é apenas uma metáfora, mas a percepção empírica de um processo bioquímico real, compreendido e manipulado com base em anos de prática e observação.
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AVAKOUDJO, Hospice. G. G.; HOUNKPÈVI, Achille.; IDOHOU, Rodrigue.; KONÉ, Mamidou. W.; ASSOGBADJO, Achille. E. Local knowledge, uses, and factors determining the use of Strychnos spinosa organs in Benin (West Africa). Economic Botany, v. 67, n. 2, p. 15-31, 2020.
NGADZE, Ruth T.; LINNEMANN, Arnold R.; NYANGA, Lovemore K.; FOGLIANO, Vincenzo; VERKERK, Ralf. Local processing and nutritional composition of indigenous fruits: the case of monkey orange (Strychnos spp.) from Southern Africa. Food Reviews International, v. 33, n. 2, p. 123–142, 2017.
OMOTAYO, Abiodun O.; AREMU, Adeyemi O. Undervalued spiny monkey orange (Strychnos spinosa Lam.): an indigenous fruit for sustainable food-nutrition and economic prosperity. Plants, v. 10, n. 12, p. 1–12, 2021
TITTIKPINA, Nassifatou K.; ATAKPAMA, Wouyo; HOEKOU, Yao; DIOP, Yerim M.; BATAWILA, Komlan; AKAPAGANA, Koffi. Strychnos spinosa Lam: comprehensive review on its medicinal and nutritional uses. African Journal of Traditional, Complementary and Alternative Medicines, v. 17, n. 2, p. 8-21, 2020.



