Conhecendo a Senhora Masosote, que é quem prepara o sope
A Senhora Mariana Macuácua é conhecida na língua local (xichangana[1]) como Masosote. Ela tem 64 anos e reside no distrito de Chibuto, província de Gaza, em Moçambique, e produz uma bebida alcoólica destilada, o sope, a partir da fermentação de massalas, um fruto também conhecido por masala ou maciela em português, e como nsala em xichangana. Ela aprendeu a preparar o sope há mais de 40 anos, observando e praticando com sua mãe, que utilizava uma técnica diferente da que ela emprega atualmente.
Sua mãe colocava as massalas com casca em um pilão (utensílio tradicional, geralmente feito de madeira, usado para triturar alimentos) e, em seguida, deixava a mistura em uma panela de barro por alguns dias antes da destilação. O procedimento de Dona Masosote, por sua vez, já não envolve o uso do pilão, pois considera esse processo trabalhoso e desgastante. Em vez de pilar, ela apenas parte as massalas e as deixa fermentar naturalmente. Mais adiante, faremos uma descrição detalhada de seu modo de preparo.
Na Figura 1, o rosto da Senhora Masosote revela a experiência de vida e o orgulho pelo saber ancestral. Com a pele escura, olhos atentos e expressivos, ela veste uma blusa rosa-clara e uma capulana azul-escura com padrões tradicionais, amarrada à cintura, típico da zona rural moçambicana. Usa um lenço estampado em tons suaves que cobre os cabelos, e brincos de argola prateada adornam suas orelhas.
Ela prepara o sope fundamentalmente por duas razões: porque gosta e como forma de garantir algum rendimento. Quando lhe perguntamos por que realiza esse trabalho, respondeu com firmeza e ternura: “Faço por gostar”. Em seguida explicou com mais detalhes: “Faço, porque este trabalho, meus filhos, existem coisas das quais ele beneficia-me. Quando destilo, ajuda-me. Faço com todo o meu coração, ninguém me manda. Quando destilo e coloco nesta garrafa, virá quem bebe, tirarei, dá-lo e ele paga-me, por exemplo, 20 meticais[2], e levo os 20 meticais, ir comprar coco ou comprar amendoim ou caril de peixe ou pães, as crianças comerem e eu comer”. Logo depois, nos lançou uma pergunta, com um sorriso no rosto: “Assim, não me beneficia?”. Ao que respondemos afirmativamente.
O preparo do sope está profundamente entrelaçado com sua história de vida e com a memória da infância, quando aprendeu com a mãe os segredos da fermentação e da destilação. Como ela própria afirmou: “está no meu sangue preparar o sope”. Ao relembrar o início, disse o seguinte: “Já faz tantos anos que pratico isto, desde na fase da minha infância, a minha mãe a ensinar-me”. Atualmente ela não cogita abandonar essa prática, pois, mais do que uma atividade produtiva, preparar o sope é um modo de vida. Trata-se de algo que lhe dá sentido, sustento e pertencimento.
O local onde ela prepara o sope é um terreno aberto de solo arenoso e avermelhado, típico do distrito de Chibuto. A destilação ocorre ao ar livre, diretamente sobre a terra, com lenha grossa alimentando o fogo que aquece um alambique tradicional feito de barro, casca de árvore e metal. Não há nenhuma estrutura formal, apenas recursos locais. Ao redor, há vegetação rasteira, árvores frutíferas como mangueiras e cercas vivas feitas de acácia espinhosa. Próxima dali cresce a massaleira, planta essencial para a produção da massala.
O preparo do sope envolve procedimentos semelhantes às operações requeridas para realizar uma destilação simples em laboratório. Entre esses, incluem-se: coletar e colocar os frutos para fermentar; organizar, preparar e ajustar os materiais e conexões necessários à destilação; tampar e vedar aberturas; ajustar a inclinação do condensador e mantê-lo suspenso em relação ao solo; realizar trocas de água; controlar o fogo e testar o destilado. Tais ações envolvem conhecimentos específicos da senhora Masosote, que não são de domínio geral da população. A seguir, descrevem-se as etapas do preparo do sope, com base na vivência realizada junto à Senhora Masosote, que compartilhou e demonstrou cada fase dos seus conhecimentos do processo com generosidade, a quem desde já agradecemos.
[1] O xichangana é uma língua bantu falada principalmente em Moçambique, especialmente na província de Gaza, e também em algumas regiões da África do Sul.
[2] O metical é a unidade monetária oficial da República de Moçambique. Foi instituído no país em 16 de junho de 1980.
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